domingo, 26 de fevereiro de 2012

A RELVA NO CAMPO (meu quinto livro, da série JORNADA, ainda não publicado)

A RELVA NO CAMPO

Eu pensei que tivesse dado sorte. Eu tava pintando um apartamento pra um colega meu num prédio na praça central, e aí ele entrou com um cara bêbado bem vestido no apartamento, os caras en­traram em todos os cômodos, olharam o carpete bem protegido por jor­nais, observaram se eu tinha feito um recorte maneiro nas ferragens junto aos vidros e na junção do teto com as paredes, e o bêbado ia cambaleando, tropeçando nos jornais e escorando as mãos nas paredes e depois os caras foram cochichar na cozinha.

Não demorou muito e meu patrão me chamou lá e me apre­sentou pro bêbado e falou que eu era um rapaz muito esforçado, porque trabalhava e estudava e tinha abandonado um curso de Enge­nharia Florestal por absoluta in­compatibilidade de gênio com as matérias e tinha rein­gressado na universi­dade pra cursar Letras, que era um curso mais de acordo com meus propósitos.

O bêbado esfregou os olhos, deu uma cuspida nos ladrilhos do chão e gaguejou:

---- Vo... você trabalha pra... pra qualquer um, Júlio?

---- Trabalho, lógico! Tô sempre correndo atrás de serviço, moço!

---- Vou... vou... vou deixar meu... meu endereço com você! Me... me... procure de vez em quando... que... que sempre tenho serviço!

---- Oh, ótimo!

O bêbado, então, tirou um cartão do bolso da camisa e me passou. Em seguida, os caras se despediram de mim e desapareceram.

O porteiro tava sentado cochilando na portaria, quando desci pra almoçar. Parei ao lado ele, enxugando as mãos na camisa, e disse:

---- Pô, cara, dei a maior sorte!

---- Por quê?

---- Sabe aquele cara que entrou aqui, acompanhando meu patrão?

---- O bêbado?

---- É.

---- O que tem ele?

---- Me disse que gostou muito de meu trabalho e que sem­pre tem serviço de pintura e vai me dar preferência. Vou trabalhar com muita freqüência! Sou calouro de Letras na universidade e sempre vou ter grana pra comprar livros e materiais escolares.

O porteiro esticou as pernas, deu um suspiro, e disse:

---- Pô, cara, você deu o maior azar!

Assustei-me!

---- Por quê?

---- Esse cara é um dos maiores pinguços da cidade e o maior explorador da mão-de-obra dos operários. Se ele fosse bom pa­trão, teria um pintor exclusivo. Não estaria lhe oferecendo serviço. Há tanta gente precisando trabalhar... A grana que você vai ganhar na mão dele mal, mal vai ser suficiente pra você comprar algumas cane­tas...se é que você vai conseguir receber!

O Bêbado era foda! Nem gostava que eu me sentasse nas cadeiras do escritório e ainda me chamou pra pintar a casa dele! Fui assim mesmo. Qualquer tostão que caísse era bem-vindo, eu tava na pior. O cara em mostrou a casa, havia também uma quitinete nos fun­dos do terreiro. O patrão queria tudo supimpa. Havia ainda uma es­ca­da, uma garagem. Muita coisa. Pintei aquilo. Demorado.

Meu patrão bêbado apreciava sobremaneira um carteado. Eu observei. Juntava os vagabundos que moravam na vizinhança e pu­nham mãos à obra. Bebiam todos e todas. E gritavam e davam murros na mesa. Vida feita. E fritavam carnes e cebolas envoltas em papel lami­nado. Era bom pras vistas, alguém afirmou. Comiam aquilo.

Meu patrão era exigente. Me ordenou que eu não me apro­ximasse do terraço quando ele estivesse jogando baralho e bebendo pinga e cerveja e uísque com os amigos. Não gostava de ser incomoda­do. Se precisasse tirar alguma coisa lá, tinha de ser antes de começar a jogatina. A presença de pessoas estranhas tira a concentração, perturba.

---- Tá certo! - eu respondi.

Demorei naquilo, naquela pintura. Naquela merda. Termi­nei numa sexta-feira. Fui no sábado de manhã buscar minhas ferra­mentas. Estavam no terraço. Pensei que pudesse colocar os pés no ter­raço, pois não havia ninguém jogando baralho nem bebendo no lugar. Nem batí à porta da cozinha. Estava fechada e eu ia mesmo apenas passar a mão em minha lata de ferramentas e cair fora. Assim fiz.

Pode parecer implicância minha com a mulher, mas não era. As aulas da dona - da Prima-não-Chefe - eram chatas, eu não era o único que dizia isso, e eu sempre tomava umas pinguinhas antes de ter de enfrentar aquilo. Fazia a cabeça, chegava à sala, me debruçava so­bre o tampo da carteira, e ficava ali. É lógico que a professora notava que eu tava bêbado, mas nunca falou.

Certa noite, ela estava particularmente insuportável. A dona tava achando que meu ouvido era paiol, porra! Afirmava a toda hora que a literatura, assim como a língua portuguesa, era uma coisa linda, maravilhosa. E eu estava particularmente bêbado. Deitei a ca­beça sobre o tampo da carteira e adormeci. Acordei com alguém me cutucando com a ponta da caneta:

---- Hei, cara, a professora tá falando com você!

Acordei sobressaltado. Balancei a cabeça. Olhei pra pro­fessora. A turma estava toda olhando pra mim.

---- Júlio César!

---- Sim, senhora, professora!

---- A resposta pra esta pergunta que estou lhe fazendo?

Eu não sabia, lógico! Chutei:

---- Ah!... é que a língua portuguesa é uma coisa maravi­lhosa! Muito linda mesmo!

A dona me olhou com olhos duros. Disse:

---- Eu estou dando aula de língua portuguesa, Júlio César? Esta é uma aula de literatura brasileira!

A dona acentuou a "literatura brasileira." Ficou me olhando.

---- É mesmo?!

---- Então, qual é a resposta?

---- É que a literatura brasileira é uma coisa maravilhosa!

A mestra balançou a cabeça vagarosamente, com ar de consternação, discordando de minhas palavras, deu um suspiro profun­do, depois, disse:

---- Esta á uma resposta científica, Júlio César?

---- Pensei que servisse.

A dona resolveu me contar prosa:

---- Júlio César, você precisa se dedicar mais à disciplina!

---- Sim senhora, professora!

---- Você precisa se formar, Júlio César! Você é um rapaz pobre! Todo mundo sabe que você precisa se formar!

---- Oh, desculpe, professora! Foi distração!

---- Mas você concorda que você precisa se formar?

---- Concordo sim, professora!

---- Muita responsabilidade, sim, Júlio César?

---- Sim, professora!

---- Você é um bom menino! Tem a cabeça boa, mas é muito vagabundo, Júlio César!

---- Certo!

---- Obrigado por não ter me respondido com grosseria, Júlio César!

---- Não há de quê, professora!

A mestra ficou satisfeita. A turma deixou de me olhar. E ela continuou:

---- Então, gente, nós podemos considerar a literatura, que é uma coisa linda, como um retrato de época e...

Havia a Professora Loura do Inglês, mulher de professor de outro de­partamento, que chegava à sala de aulas batendo os calcanha­res com força no chão, carregando aquela pasta marron lotada de pa­péis, com o nariz empinado, talvez se achando a melhor professora de língua inglesa do mundo.

Havia a outra professora de Inglês, que tinha traba­lhado na Macy's em Nova Iorque, não tinha sido descoberta por ne­nhum agente de Hollywood, mas tinha conseguido se casar com um pós-doutor que tinha se empregado na universidade e tinha se tornado, por conseguin­te, profes­sora do departamento de Letras.

Havia a parente dos políticos, de pessoas influentes, de famílias tradicionais da sociedade da cidade, que tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e que dava aulas de Litera­tu­ra, e era a chefe do departamento, prima do prefeito, mulher de um cara que se considerava poeta.

Havia o cara que se considerava poeta, claro, esposo da Prima-Chefe, e que tinha comprado diploma em uma faculdade particu­lar e tinha se tornado, através de seus laços matrimoniais, pro­fessor de Literatura portuguesa no departamento de Letras.

Havia a Irmã-do-Pró-Reitor, que também tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e tinha sido colocada pra dar aulas de português pro curso de Letras, não tinha segurado as barras, e tinha sido transferida pros cursos de área 1, onde os alunos faziam dis­ciplina de nivelamento, e onde ela ficava sempre repetindo as mesmas coisas - sujeito-verbo-predicado - e onde ela estava tendo oportunidade de apren­der a matéria.

Havia a Prima-não-Chefe, que também tinha comprado um diploma em uma faculdade particular, e dava aulas de literatura e por­tuguês e do que mais fosse necessário, e que dava pulinhos dentro da sala de aulas, e que conferia a matéria num caderno de segundo grau, e rodava a saia, e escrevia garranchos no quadro-negro, e que afirmava amiúde que a língua portuguesa era uma coisa maravilhosa e fazia raiva em todo mundo.

Havia a mulher de um professor de outro departamento, que tinha comprado diploma em uma faculdade particular, e tinha pas­sado debaixo dos panos num concurso interno e estava ocupando o lu­gar do marido da Prima-Chefe, que tinha saído pra fazer doutorado.

Havia a professora de Francês, mulher de professor de ou­tro departamento, que tinha estudado na França e falava sempre que ti­nha horror de se lembrar do Quartier Latin, e do Montparnasse, porque estes locais são cheios de artis­tas e os artistas são muito sujos e os pombos cagavam em toda a praça e os franceses nunca tomavam banho e que ela nunca mais gos­taria de voltar à França.

Nós pensávamos que os parentes já tinham dado sua cota. Era muita gente! Qual nada! Logo no princípio do período entrou uma mulher na sala de aulas. A dona parecia uma pata choca. Baixinha, gordinha, de cabelos castanhos, de óculos de grau com aros dourados, andar vagaroso, e aquela pasta marron nas mão direita. Não sei porque tanto os professores do departamento de Letras gostavam de carregar aquelas pastas marrons cheias de papéis! Então, a dona entrou na sala e se apresentou: era uma das professoras do estágio de portu­guês. Ia dar as aulas teóricas. A mulher fez uma série de exigências: que os alunos nunca deixassem de dar uma lida na matéria antes das aulas. Isto seria cobrado sempre. Que os alunos sempre participassem das aulas. A não participação implicaria em perda de pontos. E que nin­guém perdesse aulas! Alunos relapsos depõem contra a universidade, sujem o nome da instituição.

Certo! Muito certo!

Que tristeza! Lá estava: o nome da Prima-não-Chefe no meu horário. A dona ainda ia ficar me enchendo o saco durante meu último período de universidade! Era foda! No meu último Português. E logo nos meus dois últimos horários, duas vezes por semana! Eu podia pre­parar o espírito. Seria preciso fazer muita força pra não dormir. Logo, logo ela estaria rodando a saia, dando pulinhos, conferindo os tópicos no caderno, e fazendo merda, e falando merda, e interrompendo a aula, e dizendo:

---- Parece que há alguma coisa errada aqui, não é, gente?

E a turma nada responderia. Nas aulas da coroa sempre havia muitas coisas erradas!

E a dona ia dizer:

---- A língua portuguesa é uma coisa maravilhosa, mas é um tanto complicada, não é, gente?

E os alunos balançariam as cabeças, concordando.

Que saco, porra!

Antes da festa de formatura costumava se fazer um jantar com os formandos e os professores homenageados. E assim foi feito. Alguns alunos formandos não compareceram ao nosso jantar. Eu fui, lógico! Aconteceria em um restaurante chique e os professores homenageados é que iam pagar a conta!

Havia chovido, o ar estava ótimo! Fresco, aromático! Nos reunimos ao redor de uma mesa, toalha alvíssima, garçons prestativos, ambiente de pessoas de nível social superior. Havia apenas quatro formandos e três professoras: A Professora Loura, do Inglês, a Mulatona do Português, e a Professora de Francês. Sorte o resto da turma não ter aparecido. Assim, sobravam mais comida e bebida!

Enquanto alguns de nós ocupávamos nossos lugares, a Professora Loura mais a Mulatona tinham ido ao banheiro. Preparar o estômago e a bexiga para a comilança e a bebedeira, sem dúvida!

Voltaram!

A Professora Loura se sentou entre a Mulatona e eu. À nossa frente se sentaram outra professora do departamento, professora de Francês - esposa de professor de outro departamento - lógico! - e uma formanda esposa de outro professor - talvez futura professora da universidade, se desse a 1ógica costumeira, claro!, além de um formando com sua namorada.

--- O que você vai fazer após sua formatura, Julio César? - a lourona me perguntou.

---- Não sei! Talvez eu estude mais!

---- Isso mesmo, rapaz! Você deve explorar sua inteligência! Você tem muita facilidade para essas coisas, não é mesmo?

---- É!

Em seguida, a Professora Loura abriu o cardápio com as pontinhas dos dedos longos, deu uma olhada e perguntou:

---- O que nós vamos comer?

Ficou olhando para nossas caras por alguns segundos. Como ninguém se manifestasse, ela completou:

---- Eu sugiro um medalhão!

Medalhão! Que era aquilo? Eu não sabia e era melhor prestar atenção no produto, porque eu estava em vias de subir na escala social!

---- Vamos de medalhão! - todos concordaram. .

---- E, para beber, eu sugiro um Liebfraumilch! É um vinho branco alemão ótimo! - ela disse, escandindo as silabas, arredondando excessivamente os lábios.

---- Vamos de alemão! - todos concordaram.

O garçom estava de pé ao lado da mesa, humildemente esperando as ordens da madame e de suas colegas. A Professora Loura fez os pedidos, o garçom, pressuroso, anotou tudo em uma cadernetinha e se foi. Foi buscar os breguetes!

Eu dei uma cubada na Professora Loura, do Inglês: a dona havia se produzido sobremaneira para o nosso jantar. Provavelmente ficara muito tempo na frente· do espelho fazendo escova, porque dava para se ver perfeitamente os sulcos nos longos cabelos louros. Os lábios estavam perfeitamente delineados com batom excessivamente vermelho.

E ela ia falando com voz metálica, fazendo olhos de· peixe morto, e fazendo boca de peixe morto, e fazendo aqueles gestos estudados, e entortando a cara ora para a esquerda, ora para a direita, e jogando a cabeleira escovada para um lado e para o outro, e dizendo:

---- Quando eu lecionava na Universidade de Brasília, os alunos nunca me perturbaram. E olhem que eles são extremamente rebeldes! Eles nunca interromperam uma. aula minha! Apenas ficavam do lado de· fora da sala, batendo com os punhos fechados nas paredes e fazendo:

----TUM! TUM! TUM!

E ela arregalava os olhos e nós ficávamos olhando pra ela de olhos também arregalados, abismados com a chiqueza da dona. O garçom se aproximou, colocou um balde de gelo sobre a mesa. Dentro, uma garrafa verde - o Liebfraumilch!- o alemão!

A Professora Loura:

---- Meus filhos vão estudar nos Estados Unidos! Os cursos de matemática dos colégios americanos são muito melhores do que os cursos de matemática dos colégios brasileiros e ...

O garçom novamente se aproximou, colocou uma travessa sobre a mesa - o medalhão! Olhei. Ora, em apenas um grande pedaço redondo de ticha - una carne tostada, provavelmente pernil - recheada com alguma coisa!

---- .... e, à medida que eles forem aprendendo matemática, eles também vão ficando fluentes em Inglês. Assim, ao terminarem o curso, serão bons em matemática e bilíngües!

Chique!

Eu tinha pegado meu canudo e estava pensando que era o fim da jornada.

Não era.

Na verdade, a jornada estava apenas começando. E estava na parte mais difícil! Uma longa e tormentosa estrada!

Foi logo no começo do ano. Princípio de janeiro. Me disse­ram: um cursinho de Inglês tava precisando de professores. Mesmo sem ex­periência. Estavam fazendo seleção. Boca boa, dava status, projeção social. E alguma grana, lógico! Passei a mão em meu canudo e corri lá. Pen­sei de o pes­soal nem me deixar passar pela porta. Enga­no. A chefe, lá também havia uma chefe, me atendeu com toda a aten­ção, me ofereceu um cafezinho. Me aplicou uma prova escrita, me pediu pra voltar no outro dia. Ela ia dar uma lida no troço.

Voltei lá no outro dia. Os pro­fessores riam pra mim. Sem dúvida, minha prova tinha feito sucesso. A chefe me chamou pra uma sala e se pôs a falar inglês comigo. E eu ia entendendo tudinho.

---- If you had much money what would you like to do, Jú­lio?

Se eu tivesse dinheiro?! Porque ela sabia que eu não tinha? Como ela tinha adivinhado que eu não tinha?!

---- If I had much money I would like to travel all over the world. I would like to know as many countries as possible!

---- Good! Very good!

A chefe ia me falando e rindo e eu ia também rindo e pen­sando: olha aí, cara, se você não tivesse tolerado o nhém-nhém-nhém do Topete Louro, se você não tivesse tolerado as gororobas da Prima-não-Chefe, se você não tivesse suportado a morrinha da mestra de lite­ratura e a encheção de saco de todo aquele pessoal e aquelas merdas todas, você não teria pegado o canudo, e você não te­ria estado no res­taurante com as madames e os formandos de classe média bebendo aqueles troços to­dos e comendo aquelas carnes nem es­taria aqui agora conversando em língua estran­geira com esta mulher finís­sima, da soci­edade - de nível social superi­or!

Dei um sorriso de mim para mim e a mulher notou e me perguntou:

---- What is happening? Why are you laughing? Have I said anything amusing?

Eu respondi:

---- No, no! I have just remembered a very pleasant fact!

E nós continuamos falando inglês e a mulher, pra finalizar minha entrevista, disse:

---- Well, I can observe you are a very good promise as an English teacher.

Fiquei atento. Sem dúvida a dona ia me empregar! Estava saindo da universidade e estava logo conseguindo minha primeira co­locação! Asim eu pensava.

E ela logo completou:

---- Unhappily enough I have two pupils who are sons of a teacher of the university. And he told me at the term begginning: I can put my two sons in your school if you put my wife as a teacher of the school. And I could do nothing but accept! The teacher's wife is a disas­ter as an English teacher... but I need the money of her husband! And things like these never let to happen! It's a tradegy!

A tradegy!?

Fiquei puto! Gritei:

---- PORRA!

Mas certa vez me aconteceu uma coisa diferente. O cara me chamou, tratei o preço com ele. O sujeito foi com minha cara. Me dei­xou sozinho no apartamento. Ou melhor, me deixou com seu filho ma­luco. Eu nem sabia que o sujeito não batia bem dos pinos. Logo após o pai do cara deixar o apartamento (ele era separado da mulher, traba­lhava fora da cidade e só tinha aquele filho), o maluco, baixinho, care­ca, saiu do quarto e veio:

---- Sabe aquela pedra grande que tem lá assim?

O pinel fez um gesto em concha pra dentro da barriga e eu perguntei:

---- Que pedra?

---- Aquela grandona.

Olhei pro cara. Os olhos do bicho não tinham o brilho da normalidade. Ele olhava pra mim, mas certamente enxergava minha nuca. Olhos vazios, mortiços. Mas de um bonito azul-claro.

Eu não sabia de nenhuma pedra, mas falei que eu conhecia a pedra e ela era realmente grande.

---- Sei. O que tem ela?

---- É... é... é... tem urubu lá e....

Oh, saco! Urubu!

---- ... e, quando eles vão voar eles fazem a volta assim e...

Era muita sorte!

---- ...e Deus faz as coisas e...

Ele sabia da existência de Deus!

---- ... e Ele pôs os urubus lá e eles fazem limpeza!

Ora, os urubus!

Eu estava sentado lá no bar.

Havia chovido alguma coisa, o sol tinha reaparecido, a tar­de estava bela, bela e eu tomava cerveja. Tesourinhas brancas e ne­gras davam vôos picados no ar e abriam belamente suas longas caudas, pipilando prazerosamente. Os pneus dos carros provocavam um bonito som contínuo no asfalto molha­do, a tarde era bela, o mundo era belo, passavam belas mulheres na rua ensopada, estava tudo belo. Um burro cinza-claro molhado co­mia ile­galmente o capim mo­lhado no gramado da universidade. Comia ile­galmente o capim mo­lhado e abanava o rabo, satisfeito. Fiquei be­bendo. Aquela tarde pro­metia! Estiquei as ca­nelas e aspirei o ar quente da tarde bela. Estava em paz e queria que aquela tranquilidade conti­nuasse indefinidamente. Que ninguém viesse me encher o saco!

A cerveja ia descendo macio e eu logo ia acabando com uma garrafa e pedindo outra. Estava bom, sossegado demais pra ser verdade! Lá longe, perto das quatro pilastras, o Robério apareceu. Pen­sei em correr pro banheiro. Depois, desisti. Ele não ia parar pra me torrar o saco! Era de veneta, o cara, e tinha muito tempo que nós nem nos víamos. Desde quando ele apresentara o seminário e sumira. Cer­tamente, ficava os dias enfiado no meio do mato, sentado num toco. Pensando. Altas filo­sofias. E os passarinhos cagando na cabeça dele. Estava barbudo, cabe­ludo, desleixado. Era de fato triste a sina dos inte­lectuais.

Não dei sorte. Robério se aproximou de minha mesa, pôs as mãos à cintura, e disse, com desdém, a voz rouca:

---- Então, está a beber cerveja?

Barroco, o cara!

"Bom, uma tarde fui à casa me encontrar com ela e a puta tinha desaparecido, a dona dos cômodos me disse que a tinha dispensado de sua residência, não a queria mais ali. Por que? eu indaguei. Ela pita muito baseado, a dona disse. Tem dias que eu tô aqui em cima com meus filhos e nem preciso fumar aquela merda pra ficar de cabeça feita: minha casa se enche de fumaça! E já tinha ameaçado ela antes. Muitas vezes."

"Ela pita o troço, então?"

"Pita o troço?! Ela toma pico nas veias, toma chá de cogu­melo, faz qualquer negócio! Se você lhe disser que bosta dá grilo, ela bebe chá de bosta, toma na veia. É maluquinha!"

"Oh, que pena, eu exclamei, ela é tão boa de xoxota!"

E a dona dos cômodos disse:

"Não se iluda com esta sirigaita não. Ela tem mais de trinta homens. Tem um velho aí que vive enfiando grana nela. Eles fi­cam horas a fio em cima da cama de um hotel aí na cidade".

"Ela tem muitos amantes, então?"

"Tem. Todo mundo fala que ela é muito boa de xoxota. Boa demais."

"Então, eu fiquei conversando com a mulher durante alguns minutos, e pra não perder a viagem, fui pra cama com ela. Ela tinha quarenta e cinco anos e era muito larga, aguada, ruim. Mas comi aquilo assim mesmo."

"E nunca mais viu a Luziinha?"

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